Quando o nosso leitor Reinaldo Aluz Santos tinha 15 anos de idade, em 1976, o mundo era muito diferente do atual. Vivíamos não só nos tempos da Guerra Fria como o Brasil era uma ditadura militar, então presidida pelo General Ernesto Beckmann Geisel.  Conhecíamos por funk o gênero musical de James Brown, cujo correspondente, no Brasil, era Tony Tornado, muito embora fosse o grupo sueco ABBA que, com a popularização das estações de FM, estourava nas paradas de sucesso.
Nesse mesmo ano, devido a crise do petróleo,os funcionários da linha de montagem da Ford de Rudge Ramos, em São Bernardo do Campo, SP, observavam um número cada vez menor de modelos da linha Maverick sendo produzidos, ao contrário do que acontecia com o Corcel, que continuava a ter excelente aceitação no mercado, embora fosse sair de linha em breve, sendo seguido do próprio Maverick.
Entretanto, para o nosso leitor, o Maverick ainda era um sonho de consumo inatingível, especialmente no tocante aos modelos com motor 302 V8, o mesmo que equipava o Mustang e motivo pelo qual o Ford nacional, com sua esportiva carroceria fastback, nunca lhe saiu da cabeça. E a atração pelo carro também era alimentada pelos modelos equipados dos “playboys” da época, montados em lojas de acessórios como Dragster, Bunny, Rodão, Quero Luque, Faster, Daytona, Shopcar, Zune e Carru´s.. Os mais “abonados”, inclusive, tinham em seus  Maverick as lanternas do Mustang 1971/73, um acessório que, pela sua raridade, era bastante invejado. E Reinaldo decidiu que, um dia teria um cupê tão “incrementado” quanto aqueles.

Maverick-V8-Green-02

SURPRESA MARGINAL
Muitos anos se passaram e o entusiasta, ainda apaixonado pelos carros de sua juventude, comprou um reluzente Karmann-Ghia 1970, com motor 1600. Um veículo interessante, sem sombra de dúvidas, mas havia um problema: os amigos de Reinaldo, do grupo Restaurados de Garagem , também adeptos do antigomobilismo, por estarem “montados” em carros de motores V8, irremediavelmente lhe davam uma bela “canseira” para acompanhá-los nos passeios de que participava, especialmente quando era necessário “pegar” a estrada.
Assim, em fevereiro de 2009, o empresário tomou uma decisão: iria comprar um Ford Maverick, de motor 302, realizando um velho sonho e, ao mesmo tempo, resolvendo seu problema rodoviário. Descobriu um cupê Super Luxo 1976, com motor de quatro cilindros, em uma oficina no Brooklin, em São Paulo, SP. O veículo já estava parado há algum tempo e o local lhe servia mais como estacionamento do que para qualquer outra coisa. “O estado geral era razoável e percebi que tudo o que o cupê necessitava era de um dono mais zeloso”, explica.
Negociar com o proprietário do Maverick, porém, não foi muito fácil: foram oito meses de conversas até que o sujeito resolveu abrir mão do veículo. Na sequência o leitor teve um exemplo muito didático da razão pela qual não se deve exigir demais de qualquer carro que não conhece direito: “A primeira grande ‘aventura’ foi retirar o Ford do Brooklin e levá-lo para a minha garagem. Acelerei o Maverick na Marginal Pinheiros e, ao pisar no pedal do freio, o mesmo não funcionou. A sorte é que a pista estava livre e conseguimos parar o cupê muitos metros após o necessário e, em razão disso,  passei a ser mais cauteloso, guiando sem pressa até chegar em minha casa”.
Uma das primeiras providências de Reinaldo, para poder acompanhar o pessoal do Restaurados de Garagem, foi adquirir um motor 302 e uma caixa de quatro marchas. O small block foi retificado e recebeu alguns itens para melhorar um pouco a sua aceleração, como carburador Holley Quadrijet de 650 cfm, montado em um coletor de admissão Edelbrock.. O câmbio foi revisado e o diferencial do quatro cilindros (3,92:1) deu lugar ao do modelo de motor V8 (3,07:1), que recebeu tampa aletada.
O eixo motriz “ganhou” um sistema de freios a disco empregando as peças da atual geração do Honda Civic, enquanto o cilindro mestre foi substituído pelo da pick-up Pampa (uma solução comum nos modelos da linha Maverick). As suspensões foram inteiramente refeitas, mas Reinaldo logo percebeu que o cupê não tinha um comportamento adequado, pois o carro “jogava” muito de lado. Assim, as buchas de borracha foram substituídas por outras de poliuretano. No seu estágio atual o Super Luxo ainda utiliza a caixa de direção original mecânica, por setor e rosca sem fim com esferas recirculantes, cuja redução é de 29,4:1, mas Reinaldo já está estudando a adaptação de um sistema com assistência hidráulica.

RUMO AO ROAD TOUR
Foi feita, então, toda a funilaria do veículo, eliminando os poucos focos de corrosão existente. Também foi eliminada, por gosto pessoal, as canaleta de chuva do teto, permitindo, assim, a realização da nova pintura, que utilizou uma tinta metálica escura denominada Verde Panteon, originaria da linha Volkswagen. Nesse meio tempo os pára-choques foram recuperados e cromados e, depois, houve a instalação de um novo chicote elétrico e a susbstituição dos faróis originais (selead beams da General Eletric) por blocos ópticos da motocicleta Honda Twister.
Posteriormente teve inicio a montagem do carro propriamente dita, que recebeu diversas alterações ao gosto de seu proprietário. A grade plástica do radiador de lugar a outra metálica e a moldura dos faróis receberam acabamento em preto (como no modelo GT)  mesma cor do ressalto do capô, que ainda teve montado um scoop. Lateralmente o carro se destaca pelas faixas do GT e pelas rodas esportivas nacionais de liga leve, de aro polido e miolo pintado, “calçadas” com pneus 225/50/17 e 245/45/17, substituindo as rodas de aço 14 x 5 com pneus diagonais 6.95 S14.
As caixas de ar receberam apliques que imitam escapes laterais e, na traseira, a abertura da tampa do tanque de gasolina foi eliminada. Como toque final o carro “ganhou” as lanternas originais acrílicas do Mustang 1971/72, tal como os Maverick equipados da adolescência de Reinaldo. Este detalhe, que pode ser definido como old school, diferençou o veículo das centenas de cupês que rodam, por todo o Brasil, com réplicas de resina das lanternas do Mustang Shelby GT 500 1967. Vale citar que tais réplicas foram popularizadas pelo caricato remake do filme 60 Segundos (2000). Sua versão original, porém, rodada em 1974 e estrelada pelo cultuado H. B. “Toby” Halicki), utilizava justamente um Mustang Mach I 1973. Isso demonstra que o cupê aqui enfocado, ao invés de seguir modismos efêmeros, realmente tem uma história para contar…

Internamente toda a tapeçaria foi refeita, incluindo o carpete do assoalho e as laterais de portas. Os bancos dianteiros de encosto baixo deram lugar a dois modelos concha italianos da marca Sparco (a mesma da manopla de câmbio, feita em fibra de carbono), cujo desenho da capa foi reproduzido no banco traseiro. Os instrumentos originais deram lugar a um conjunto digital da marca Guster, composto por velocímetro, conta giros, manômetro de óleo, marcador do nível de combustível, voltímetro, termômetro de água e relógio.
“O Maverick ficou pronto em março de 2010 e, para testá-lo, sai de São Paulo rumo a Campinas, SP, para participar de um encontro mensal lá realizado. Como o carro se saiu bem, fiquei seguro para participar, com a companhia de minha esposa Mazé, de uma aventura ainda mais importante”. Esta última, conforme o leitor mais atento deve ter notado ao reconhecer o cupê, foi o II Road Custom Road Tour, realizado entre os dias 12 e 14 de novembro de 2010. “A experiência foi tão fantástica que também participei da terceira edição do evento, ocorrido entre 10 e 13 de agosto de 2012, com o carro”, finalizou, satisfeito, o leitor, após realizar, em grande estilo, um sonho de quase quarenta anos atrás.

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